SENADOR REQUIÃO RECEBE MEDALHA NO RIO E PEDE REAÇÃO DURA CONTRA ENTREGUISMO

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SENADOR REQUIÃO RECEBE MEDALHA NO RIO E PEDE REAÇÃO DURA CONTRA ENTREGUISMO – ### –

 

No “Ato em Defesa do Estado Democrático de Direito e da Soberania Nacional”, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (11), o senador Roberto Requião recebeu a “medalha Tiradentes”, a mais alta condecoração da Alerj, por sua luta em favor em favor do Brasil.

Ao agradecer a homenagem, Requião reafirmou o seu compromisso em defesa da independência nacional e contra a globalização financeira, “em nome da qual se aplica no país uma política econômica recessiva, que desemprega, desindustrializa e desnacionaliza”.

O senador conclamou os brasileiros a reagirem com o mesmo espírito patriótico que moveu os inconfidentes mineiros e todos aqueles que se levantaram contra a opressão colonial.

A concessão da “Medalha Tiradentes “ a Requião foi proposta pelo deputado Paulo Ramos.

 

Assista ao discurso feito pelo senador na Alerj:

Lutar pela Independência da Pátria é uma honra. Muito obrigado!

Roberto Requião[1]

Agradeço ao deputado Paulo Ramos, que propôs, e às senhoras e aos senhores deputados que aprovaram, a concessão da mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a medalha Tiradentes.

Receber esta condecoração batizada com o nome da figura-símbolo de nossa luta pela Independência, nesses dias em que a soberania nacional é agredida tão violentamente, é uma grande honra.

Nunca imaginei que ao chegar aos 77 anos teria ainda como uma das minhas principais bandeiras a luta pela soberania nacional, pela independência do Brasil dos grilhões imperiais.

Nunca imaginei – e ninguém em sã consciência poderia imaginar- que 226 anos depois da execução de Tiradentes a luta pela Independência seria ainda uma causa nacional e que também custasse vidas, reputações, sacrifícios, injustiças.

Nunca imaginei que em vez daqueles juízes enviados por Portugal, para presidir o julgamento dos inconfidentes, tivéssemos agora juízes e promotores, a serviço da nova metrópole, a presidir a liquidação da soberana brasileira.

Nunca imaginei que, mais de dois séculos depois, os Silvérios dos Reis, os Judas, os Calabares, os Cabos Anselmos, os vende-pátrias, os quintas-colunas, estivessem no comando do Brasil.

Nunca imaginei que fosse ainda tão atual o poema “Triste Bahia” que Gregório de Matos escreveu há 326 anos e cuja releitura bem pode ser esta:

Triste Brasil.. ó quão dessemelhante estás.

Pobre te vejo a ti.

Rico te vi eu já.

Tanto negócio, tanto negociante.

Destes em dar tanto petróleo,

tantos minérios, tantas terras,

tão rico mercado

a troca das drogas inúteis que aceitas do sagaz ianque.

Triste Brasil, tantos negócios, tantos negociantes.

Se, de um lado, sinto-me honrado, orgulhoso e agradecido pela homenagem, de outra ponta esmaga-me a realidade vivida hoje pelo nosso país. Está sendo tudo demolido. Nada do que distingue, do que forma a nossa nacionalidade parece suster-se em pé.

Mesmo o que imaginávamos sólido, dissolve-se, esfarela-se.

A soberania escapa-nos, foge-nos por todos os poros da Nação.

O nosso solo, o nosso sagrado e amado solo, as nossas terras, em cuja defesa sangraram gerações de brasileiros, as nossas terras estão sendo vendidas aos estrangeiros sem limite de extensão ou restrições quanto à localização ou ao uso.

A par disso, vemos alguns néscios opondo-se à demarcação de terras para índios ou quilombolas, sob o argumento de que essas comunidades podem representar um risco à integridade territorial nacional. Não manifestam incômodo com chineses, os norte-americanos ou europeus que arrematam grandes extensões de terra e sim com os índios e os descendentes de escravos.

Pergunto: em algum momento da história brasileira governantes franquearam a venda de terras para estrangeiros? Atraímos, trouxemos colonos, é verdade. Mas nada se compara com a venda direta de terras, com a alienação de grandes extensões de nosso solo a grandes grupos econômicos internacionais.

São terras de uso variado. Terras para a agricultura, terras para a exploração mineral e, pasmem, terras que guardam em seu subsolo fantásticas reservas de água doce, como o aquífero Guarani.

Temos mais de 12 por cento da água doce do Planeta Terra, e era de se esperar que isso despertasse a cobiça da Coca Cola, da Nestlé, das cervejarias e de quem mais fosse.

Afinal, dizem, há de ser a água, em breve tempo, o objeto maior da cobiça das grandes potencias e das transnacionais.

A soberania sobre o nosso mar territorial também se fragmenta, junto com a entrega do preciosíssimo petróleo da camada pré-sal. A tecnologia da exploração do pre-sal é nossa, fomos nós que descobrimos essas reservas fantásticas.

E esse era o nosso passaporte seguro para o futuro.

Mas, diga-se, essa renúncia à soberania sobre o petróleo não é deste governo. Ele abriu completamente a guarda e exagera no entreguismo, a ponto de escandalizar até mesmo as petrolíferas multinacionais, tal a generosidade das doações. No entanto, os governos passados também cederam ao mercado.

Temos então que petróleo, terras, florestas, água, os nossos ares e os nossos mares transformam-se em mercadoria, em commodities a serem negociadas, a serem financeirizadas no mercado global.

E o resultado dessa maluquice, dessa desnacionalização do país resulta, por exemplo, em uma crise gravíssima como a provocada pela greve dos caminhoneiros.

O Brasil não é mais gerido por Brasília. É na Bolsa de Nova Iorque que se definem os elementos básicos de nossa política econômica e, em consequência, o bem-estar ou o mal-estar de nosso povo.

Caso alguém considere essa afirmação um exagero, espelhe-se, então, nos acontecimentos de duas semanas atrás.

A cessão da Base de Alcântara, que o Itamarati voltou a negociar com os Estados Unidos; a absorção da Embraer pela Boeing; os cortes criminosos, infames dos recursos para as áreas de ensino, pesquisa e inovação, provocados pela mais aberrante, anômala e imbecil legislação jamais adotada por um país, que é a PEC que congelou por inacreditáveis 20 anos os gastos públicos, são simbólicos do galanteio, do flerte das nossas elites governantes com o atraso, com o regresso às condições coloniais.

Quando o malfadado governo Fernando Henrique Cardoso zerou tarifas de importação, sob o pretexto de alinhar o Brasil à modernidade global, o nosso setor industrial mais avançado, o setor de autopeças foi simplesmente estraçalhado.E, em seguida, na bacia das almas, absorvido pelas transnacionais do setor.

E qual foi a primeira providência dos compradores da Metal Leve, da Cofap, da Freios Vargas?

A primeira providência foi desmontar os centros de pesquisas dessas fábricas e transplantá-los para os Estados Unidos. Esses centros de pesquisas eram que existia de mais avançado no mundo no setor de autopeças. Hoje, pagamos royalties para comprar o que foi aqui desenvolvido.

E, sob o atual governo, aceleram-se os passos da desnacionalização do setor industrial. Na verdade, vemos dançar um dueto monstruoso: a desindustrialização fazendo par com a desnacionalização.

Esse dueto fica ainda mais repulsivo e abominável e se transforma em terceto, quando a ele se junta o mercado financeiro, a banca, o deus dinheiro, Mamon.

É o ideal de nossos neoliberais, dos defensores da teoria da dependência, dos colonizados: um deserto industrial, o reino do capital improdutivo que não manufatura um botão, não gera empregos, salários ou renda.

Senhoras e senhores deputados.

Não se conhece e não haveremos de conhecer um país que tenha superado o subdesenvolvimento, a pobreza, a desigualdade apoiando-se apenas na produção e exportação de produtos primários, minérios, petróleo e grãos, no caso brasileiro.

Soberania nacional, independência, país desenvolvido, justo, seguro e bom para todos se faz com indústria nacional, com ciência, pesquisa, tecnologia e inovação.

Tiradentes, assim como outros inconfidentes, sabemos, tiveram contato com os fundadores dos Estados Unidos da América.

Há uma clara identidade de propósitos entre conspiradores brasileiros e norte-americanos.

Fim do monopólio colonial exercido a ferro e fogo pela metrópole; imposição de tarifas alfandegárias para proteger o produto local; criação de indústrias; criação de universidades, por exemplos, estão no programa de Washington, Adams, Franklin, Jefferson e Alexander Hamilton e no programa de nossos inconfidentes.

Não há diferença entre os objetivos do “Tratado das Manufaturas”, proposto por Alexander Hamilton e que embalou o nascimento da indústria norte-americana, e a frase de Tiradentes, citada pelo historiador Lucas Figueiredo.

Dizia o protomártir de nossa Independência: “Era uma pena que países tão ricos como estes (as Minas Gerais) estivessem reduzidos à maior miséria só porque a Europa, como esponja, lhe estivesse chupando toda a substância”.

Lá e cá a mesma compreensão de que a Independência seria conquistada não tão-somente com o rompimento dos laços com Londres e Lisboa, e sim com a industrialização, com a proteção ao produto nacional, com restrições alfandegárias, com a educação.

A Inconfidência, sabemos, foi desbaratada a partir de uma delação premiada. Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes, este o nome todo do gajo.

Como a história não se repete, a não ser como farsa, o teatro de hoje da Lava Jato, as delações premiadas, os juízes que vão e vêm aos Estados Unidos, como os que iam e vinham à Lisboa não são mera pantomima.

Enfim, na estrada à frente, 226 anos depois de execução de Tiradentes, aguardam-nos os ásperos caminhos da luta pela Independência brasileira. É o que nos resta a fazer, é o que devemos fazer.

Obrigado pela homenagem. E contem sempre comigo quando a causa é o Brasil, os nossos trabalhadores e o capital nacional produtivo.